terça-feira, 2 de dezembro de 2008

HANDOUT - TÓPICOS - GRICE E AS IMPLACATURAS CONVERSACIONAIS

O filósofo inglês Henry Paul Grice (1913-1988), que foi prof. da Universidade da Califórnia, formulou a propostas de uma semântica fazendo a distinç o entre o significado do falante (speaker´s meaning) e significaç o literal.
O Método de Grice e sua teoria das "implicaturas conversacionais" foram inicialmente formuladas no texto "Logic and Conversation" (1967), fruto de confer ncias proferidas na Universidade de Harvard, publicado na coletânea de texto de Grice, Studies in the Way of Words (Harvard University Press, 1991)

A preocupaç o central de Grice era encontrar uma forma de descrever e explicar os efeitos de sentido que v o além do que é dito. Em última análise, como é possível que um enunciado signifique mais do que literalmente expresso. Deve haver algum tipo de regra que permita a um falante (A) transmitir algo além da frase e a um ouvinte (B) entender esta informaç o extra.
Grice prop e, inicialmente, um exemplo que se tornou clássico. (A) e (B) est o conversando sobre (C). (A) pergunta a (B) sobre a situaç o de (C) no seu emprego. (B) responde: "Oh! muito bem, eu acho; ele gosta de seus colegas e ainda n o foi preso". Um diálogo desse tipo, observa Grice, possibilita perceber, claramente, que há duas formas de significaç o distintas. A resposta de (B) diz que (C) está bem e ainda n o foi preso e implica ou sugere que isso pudesse ter acontecido, tendo em vista que (C) é o tipo de pessoa que pode ceder s press es do seu trabalho e fazer algo que o leve pris o. É a partir desse contexto que Grice introduz os termos técnicos implicitar (implicate), implicatura (implicature) e implicitado (implicatum). Seu objetivo é organizar, ao redor deles, um sistema explicativo dessa significaç o que (A) e (B) podem entender mas que, efetivamente, n o foi dita. É importante ressaltar, aqui, que Grice usa "dito" como o significado expresso pelo enunciado em termos literais ou, em outras palavras, como a proposiç o em seu valor semântico.
O conceito de implicatura conversacional é o centro das atenç es de Grice no seu artigo clássico e mesmo em trabalhos posteriores como o texto "Pressupositions and Conversational Implicative", de 1981.
Para ele, quando dois indivíduos est o dialogando, existem leis implícitas que governam o ato comunicativo. Isso significa que, mesmo inconscientemente, os interlocutores trabalham a mensagem lingüística de acordo com certas normas comuns que caracterizam um sistema cooperativo entre eles, para que as informaç es possam ser trocadas o mais univocamente possível. Grice chama, a esse conjunto de regras, "Princípio de Cooperaç o". N o é possível, nem imaginável, segundo ele, que um ato comunicativo pudesse ser totalmente livre, a ponto de falante e ouvinte perderem o controle do próprio jogo. Ao contrário, as regras do ato comunicativo talvez tenham sido aprendidas concomitantemente aquisiç o da língua, de tal forma que um falante competente do portugu s também conhece os efeitos de sentido que uma mensagem em portugu s pode adquirir pela aç o das regras do jogo comunicacional a que está submetido. N o é por outra raz o, aliás, que se fala muito, hoje, numa teoria de compet ncia comunicativa.
Nesse sentido, Grice, retomando uma formulaç o kantiana, sistematiza o seu "princípio de cooperaç o"(PC) através de quatro categorias fundamentais articuladas a máximas e submáximas.
O Princípio da Cooperaç o - Máximas e Implicaturas

Categoria da Quantidade
Relacionada quantidade de informaç o que deve ser fornecida numa mensagem. A ela corresponde duas máximas:

Faça com que sua mensagem seja t o informativa quanto necessária para a conversaç o.
N o d mais informaç es que o necessário.

Categoria da Qualidade
Relacionada inicialmente supermáxima "Procure afirmar coisas verdadeiras " e, indiretamente, a duas máximas mais específicas:

N o afirme o que voc acredita ser falso.
N o afirme algo para o qual voc n o possa fornecer evid ncia adequada.

Categoria de Relação
Ligada máxima "Seja Relevante".
Categoria do Modo
Ligada supermáxima "Seja Claro" e várias máximas como as citadas abaixo, entre outras:

Evite obscuridade de express o
Evite ambigüidade
Seja breve (evite prolixidade desnecessária)
Seja ordenado

Embora possa haver outras regras, ainda, como a da polidez, por exemplo, no circuito da comunicaç o, Grice deixa entender que as quatro categorias citadas s o suficientes para explicar o fenômeno da implicatura conversacional.

I - Nenhuma máxima é violada
(3) (A) - Estou com dor-de-cabeça. (B) - Há uma farmácia nesta rua.
(4) (A) - N o suporto mais minha m e. (B) - Freud explica isso.
(5) (A) - A crise econômica parece cada vez pior. (B) - Parece? Voc já leu "O Capital"?

Mesmo que, aparentemente, os tr s exemplos apresentem a quebra de uma máxima como a da relevância ou de uma supermáxima como a da clareza, ainda assim, n o há motivos para se afirmar que (B) violou o princípio da cooperaç o. Ao contrário, (A) poderá deduzir a implicatura conversacional exatamente por compreender que (B) está respeitando as regras do diálogo.

Em (3), (A) deduz que (B) diz haver uma farmácia na rua porque quer implicar que ela deve estar aberta e ter remédios que possam ser adquiridos por (A) para que seu problema seja resolvido.
O exemplo (4) é mais sutil, mas ainda n o representa um desrespeito ao PC. (A) depreende da resposta de (B) que ela quer implicar a natureza psicanalítica da relaç o de (A) com sua m e. No caso, a implicatura poderia remeter a um elemento do contexto cultural comum a (A) e (B) representado pelo "Complexo de Édipo".

II - Uma máxima é violada para que a outra n o o seja
Neste caso, sup e-se que a máxima preservada seja mais relevante que a abandonada. (Respeito máxima de relevância quanto escolha da máxima a ser preservada)

(6) (A) - Que significa "pressuposiç o"? (B) - Consulte uma obra de semântica.
(7) (A) - Que horas s o? (B) - Já é tarde.
(8) (A) - Voc me ama? (B) - Eu gosto de estar em sua companhia.

Os tr s exemplos demonstram que a resposta de (B) quebra a máxima da quantidade por n o ser t o informativa quanto o requerido. Entretanto, (B) parece estar respondendo assim, para implicar que n o teria condiç es de oferecer uma resposta mais precisa e, por respeitar a supermáxima da qualidade, e acreditar que ela seja mais relevante no contexto que a da quantidade, prefere ser menos informativo a mentir.
No primeiro caso, (B) n o responde pergunta, oferecendo em seu lugar uma informaç o relativamente vaga mas que implica uma informaç o segura e sincera.
O exemplo seguinte também é bastante comum e os interlocutores de um diálogo, como esse, sabem perfeitamente o que (B) está dizendo e implicando. A pergunta de (A) requer uma resposta exata, a hora certa. Sabe-se, entretanto, que é muito freqüente que (B), n o tendo condiç es de dar a informaç o exigida, ofereça alguma satisfaç o pergunta, embora de forma vaga. (A) entende, perfeitamente, que (B) está dizendo que é tarde e implicando que n o pode, honestamente, dar uma resposta certa e exata para (A), mas assim mesmo, está atento mensagem e posicionando-se diante dela.
O último diálogo também é bastante familiar. A pergunta de (A) poderia ser respondida sim ou n o; (B), porém, prefere afirmar algo que parece estar quebrando a máxima da relevância e da quantidade, tentando implicar que n o pode ou n o quer dar uma resposta radical pergunta de (A). Essas implicaturas representam uma das leituras possíveis , uma vez que, se (B) está cooperando, ele autoriza (A) a buscar alguma infer ncia desse tipo.

III - Violaç o de uma máxima para obter implicatura conversacional.
As figuras de linguagem em geral est o contidas nesse caso.

1a) Abandono da máxima da quantidade (por falta de informaç o)
(9) (A) - O que voc pensa dos judeus? (B) - Um judeu é um judeu.

A tautologia, nesse sentido, representa uma violaç o voluntária da máxima da quantidade medida que (B) resolve responder a pergunta como uma afirmaç o redundante para implicar que judeu n o é, apenas, um povo particular, mas algo de especial que a história registrou por tudo o que se disse dele.
1b) Abandono da máxima de quantidade (por excesso de informaç o)
(10) (A) - Qual foi o resultado do jogo de hoje? (B) - O Gr mio perdeu de dois a zero e, agora, está com tr s pontos atrás do Inter e saldo de golos negativo.

A resposta de (B) é mais informativa do que o requerido para que possa implicar que o Gr mio, além de perder, está em má situaç o na tabela de classificaç o.
2a) Abandono da primeira máxima da qualidade

(11) (A) - O que voc acha do governo militar? (B) - Democrático demais.
Este exemplo evidencia o que costumeiramente se entende por ironia. (A) e (B) sabem que a grande acusaç o feita aos governos militares é n o serem eleitos pelo povo, na maioria dos casos, e obstaculizarem as eleiç es diretas. Nesse sentido, a resposta de (B) é francamente irônica, afirmando algo em que ele n o acredita, para implicar que, ao contrário do que se diz, acusa o governo de antidemocrático.

(12) (A) - Em S o Paulo todos trabalham. (B) - É verdade. S o Paulo é uma enorme fábrica.
A resposta de (B) é a violaç o da máxima da qualidade através do processo conhecido como metáfora. (A) e (B) sabem que (B) sabe que S o Paulo n o é uma fábrica enorme, mas entendem que a resposta metafórica implica a crença de (B) sobre a capacidade de trabalho que há nesta cidade.

Como o próprio Grice observa, é possível, muitas vezes, misturar-se a metáfora com a ironia, atentando-se duplamente contra a máxima da qualidade. Como é o caso de um enunciado do tipo "O nordeste é o paraíso dos que trabalham."
(13) (A) - Jo o foi internado numa clínica psiquiátrica. (B) - É, ele andava um pouco nervoso. (A) - A m e dele já está bastante velha. (B) - Velha? é uma criatura pré-histórica.
Aqui, os recurso utilizados caracterizam o que se denomina eufemismo e disfemismo. As resposta de (B) s o intencionalmente falsas. A primeira, no sentido de suavizar a normalidade psíquica de Jo o, e a segunda, no sentido de exagerar a velhice de sua m e. As implicaturas conversacionais s o decorrentes dessa quebra voluntária da primeira máxima da qualidade.
(14) (A) - Voc me acha bonita? (B) - Voc é a mais linda do mundo.
(A) entende, claramente, que (B) está exagerando (hipérbole) para implicar que ele a considera muito linda, embora n o acredite, provavelmente, no que diz, porque também n o possui evid ncia do que afirma.

2b) Abandono da segunda máxima de qualidade
(15) (A) - Onde está o Delfim Neto? (B) - Deve andar pedindo algum dinheiro por aí.
Neste caso, (A) sabe que (B) n o teria condiç es de provas do que disse, mas entende, perfeitamente, que ele (B) quer implicar que o Ministro do Planejamento só faz isso, ou seja, pede empréstimos.

3) Abandono da máxima da relaç o
Consiste na quebra voluntária da máxima "Seja Relevante"
(16) (A) - Voc vai me dar uma aliança de brilhante de presente? (B) - Puxa! Como está quente, hoje. (A) - Eu perguntei se voc vai me dar a aliança? (B) - Em compensaç o, acho que finalmente vai chover.
Neste contexto, poder-se-ia supor que marido e mulher dialogassem, e que o marido (B) estivesse quebrando a máxima de relevância para implicar que n o quer enfrentar a pergunta de sua mulher (A) objetivamente. A sua segunda resposta é relevante em relaç o a sua primeira afirmaç o e continua quebrando a máxima no que se refere pergunta de sua mulher.

4) Abandono da máxima do modo
Consiste na quebra da supermáxima "Seja Claro", através de diversas formas.
4a) Ambigüidade

(17) (A) - Sua secretária parece ser eficiente. (B) - Sem dúvida, é uma mulher muito boa.

A resposta de (B), no caso, explora voluntariamente, a ambigüidade da express o "boa" em portugu s, quando aplicada a uma mulher. (B) diz que ela é boa, mas acentua o objetivo para implicar a possibilidade de ela ser muito sensual.

4b) Obscuridade
(18) (A) - Paulo, por que voc me pediu para esperá-lo no quarto? (B) - (Na frente da mulher e do filho pequeno) Bem, eu tinha um assunto muito importante para tratar com voc , um assunto particular, voc me entende, n o?
(B), neste caso, está sendo propositadamente obscuro para n o falar de algo que n o quer que o filho saiba. Explora, voluntariamente, a vaguidade de sua resposta para implicar que quer algo (sexo, por exemplo) com sua mulher de que, o filho n o deve tomar conhecimento.

4c) Falta de concisão
(19) (A) - Em qual das obras de Gazdar se encontra a definiç o de pragmática? (B) - Na obra Pragmatics, Implicature, Pressupposition and Logical Form, de 1979, editada pela Academic Press, na página 2, terceiro parágrafo da introduç o, na oitava linha.
Esse exemplo pode servir para que (A) entenda que a resposta de (B) quer implicar o seu nível de especializaç o e conhecimento bibliográfico.
4d) Falta de ordem

(20) (A) - Voc sabe brincar de índio? (B) - Brincadeira de índio mim gostar.
A resposta de (B) quebra, intencionalmente, a ordem para implicar que ele aceitou o convite.
Antes de empreendermos a análise crítica do sistema griceano, cabe explicitar as propriedades que as implicaturas devem ter para que possam ser consideradas como tais, segundo o próprio Grice.

1 - As implicaturas convencionais s o:

presas força convencional do significado das palavras;
reconhecidas pelo interlocutor mediante a sua intuiç o lingüística. N o dependem de um trabalho de cálculo dedutivo.

2- As implicaturas conversacionais devem ser:

calculáveis ou dedutíveis
canceláveis
n o-separáveis
indetermináveis
externas ao sentido do enunciado - n o-convencionais
n o determinadas pelo dito, mas pelo dizer e dito.

Calculáveis e dedutíveis
Grice afirma que, se uma implicatura n o for reconhecida pelo trabalho do cálculo lógico, ela n o pode ser conversacional. Consideremos um exemplo anteriormente dado:

(3) (A) - Estou com dor-de-cabeça. (B) - Há uma farmácia nesta rua.
(A) acredita que (B) está respeitando o princípio da cooperaç o e, ent o calcula: se (B) disse que há uma farmácia nesta rua ao ouvir a minha frase, (B) quer implicar que

Devo ir farmácia

Ela deve estar aberta

Ela deve ter remédio para dor-de-cabeça

Eu devo comprá-lo

Isso irá resolver meu problema.
É um trabalho de cálculo lógico que Grice considera uma propriedade básica para que se localiza uma implicatura conversacional.
Canceláveis

Em primeiro lugar, uma implicatura conversacional pode ser cancelada, simplesmente porque o princípio da cooperaç o que deve estar sendo respeitado para que ela exista, pode n o s -lo num contexto particular. Consideremos o seguinte exemplo:
(21) (A) - Preciso de dinheiro. (B) - N o me irrite

(A) pode entender que (B) está implicando que (A) n o deve pedir-lhe dinheiro. (B), porém, pode n o estar obedecendo ao princípio da cooperaç o e, simplesmente, estar protestando contra o gesto de (A) ou, até referindo-se a outra atitude de (A) que bate a porta, por exemplo.
Um outro tipo de cancelamento de uma implicatura conversacional é aquele feito mediante uma cláusula (oraç o) adicional.
(22) (A) - Quanto voc tem na poupança? (B) - R$ 200,00

Aqui, (A) entende que, se (B) está respeitando a máxima da quantidade, ele tem R$ 200,00 como diz e implica que tem só isso. Pois bem, a implicatura poderia ser cancelada por uma cláusula condicional: R$ 200,00 se n o mais.

Há ainda, um outro tipo de cancelamento que o contexto pode possibilitar sem acréscimo de nenhum reforço lingüístico. (A) diz para (B) que quer vender seu carro. (B) pergunta quanto custa e (A) diz que é R$ 6000,00 ao que (B) responde: Bem, eu tenho R$ 6000,00. Nesse caso n o podemos inferir que é só isso que (B) tem.

N o-separáveis
Essa propriedade diz respeito ao fato de que as implicaturas conversacionais, para que possam ser calculadas, exigem um conhecimento contextual, além do conteúdo semântico da express o, n o dependendo, portanto, do modo da express o. Em outras palavras, a implicatura permanecerá desde que se diga a mesma coisa ainda que de outra maneira, com sinônimos, por exemplo.
Consideremos o exemplo abaixo:
Modo de express o X Modo de express o Y

(23) (A) - A minha cabeça está doendo. Estou com dor-de-cabeça. (B) - Há uma drogaria aqui perto. Há uma farmácia nesta rua.
O diálogo, no caso, tanto no modo de express o X quanto no modo de express o Y, revela a mesma implicatura, tendo em vista que o dito n o se alterou em X ou Y.
Indetermináveis

Neste caso, a metáfora parece ser um exemplo bastante evidente.
(24) (A) - O que voc acha do jogador Sócrates? (B) - Sócrates é um le o.
(B) viola, aqui, a máxima da qualidade. Ele sabe que Sócrates n o é, efetivamente, um le o, mas quer implicar que Sócrates é forte e esforçado como um le o. Poderíamos, entretanto, supor que (B) quisesse implicar que Sócrates é o rei dos jogadores ou, em outro contexto, que ele é carnívoro e agressivo. Enfim, como o cálculo da implicatura pode, as vezes, referir-se a uma lista aberta de implicitados, estes podem ser indeterminados como, alias, é comum nos casos de subentendidos.

N o-convencionais
Essa propriedade diz respeito diferença que Grice estabelece entre implicaturas conversacionais e convencionais. Ele até admite que uma implicatura conversacional possa tornar-se convencionalizada, mas, em princípio, n o deve fazer parte da força convencional das palavras do enunciado.

Consideremos o seguinte exemplo:
(25) (A) - Voc acha que política é uma coisa simples? (B) - Tanto quanto a teoria da relatividade.

A resposta de (B) produz uma implicatura conversacional medida que (A) deduz que, tendo em vista a sua pergunta, e o aparente abandono da máxima da relevância na resposta de (B), ele (B) deseja implicar que política é muito difícil e complexa, e isso n o faz parte do significado literal do seu enunciado.

N o veiculada pelo dito
Aqui, Grice tenta demonstrar que só as condiç es -de- verdade n o determinam a implicatura. O que é dito pode ser verdadeiro e o implicado, falso.
Veja-se o caso abaixo:

(26) (A) - Será que Jo o fez a bobagem de viajar? (B) - Se ele fez, está feito.
O enunciado de (B) é verdadeiro, a medida que é tautológico. O fato de ser tautológico implica que (B) quer que (A) entenda que a preocupaç o de (A) n o resolve nada. Isso, entretanto, pode ser falso, desde que, por exemplo, (A) pudesse tomar alguma atitude, determinada por sua preocupaç o. Em outras palavras, "Jo o pode ter viajado" é o dito e é verdadeiro. "N o adianta mais nenhuma preocupaç o" é o implicado e é falso, uma vez que (A) pode, a partir daí, tomar decis es que n o tomaria se Jo o n o tivesse viajado.

As implicaturas conversacionais podem subdividir-se, segundo Grice, em dois tipos:
a) Implicaturas Conversacionais Generalizadas.
S o aquelas que n o dependem de especificaç es de um contexto particular. Consideremos o caso abaixo:

(27) (A) - "Teresa deu presentes a um beb ontem."
Independentemente do contexto, a frase de (A) implica que o beb n o é filho de Teresa. Alias, se alguém acrescentasse em seguida que o beb em quest o era filho dela, a frase de (A) surprenderia por parecer estar quebrando princípio da cooperaç o. Grice observa que esse tipo de implicatura é muito semelhante s convencionais, evitando, inclusive, maiores exemplos.

b) Implicaturas Conversacionais Particularizadas
S o as que exigem, para que possam ser calculadas, informaç es de um contexto específico.
Examinemos o exemplo:

(28) (A) - Maria está t o feliz agora.
Está frase poderia implicar que "Maria fez as pazes com o namorado" desde que o contexto particular fosse este:
Maria andava infeliz Maria tinha brigado com o namorado
Parece evidente que a quebra de máximas que caracteriza a ironia, por exemplo, provoca, quase sempre, implicaturas conversacionais particularizadas, tendo em vista a depend ncia do contexto que a ironia possui. Se (A) diz que Jo o é um g nio, isso só pode ser irônico para (B) num contexto (C) onde Jo o seja um idiota, por exemplo.


Refer ncias
1 J. Searle, Speech Acts. Cambridge. 1969
2 H.P. Grice. Logic and Conversation, in P. Cole and J.L. Morgan (eds), Sintax and Demantics, vol 3. New York. Academic Press. 1975. p.43
3 cf. Grice, op. cit., p. 44
4 cf. as inúmeras observaç es feitas por S. J. Schimidt ao longo de seu trabalho sobre lingüística do texto. Lingüística e Teoria do Texto. 1978. p.32-35
5 Neste caso, Grice observa que as máximas, pelo menos aparentemente, n o est o violadas. O que ele quer dizer, e que n o ficou claro no texto original, é que (A) e (B) em diálogo, n o est o considerando nenhuma implicatura por violaç o. Antes, é o respeito ao PC que está gerando significaç es extralingüísticas.










- Bibliografia –

MARCONDES, C. A Pragmática na filosofia contemporânea. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

ELABORAÇÃO TEÓRICA DE SEARLE

Questões de Trabalho

1.De que modo John Roger Searle, continuador das reflexões teóricas de Austin, distancia-se tanto de Saussure quanto de Chomsky?

Searle distancia-se de Saussure ao sustentar que a enunciação está sujeita a regras convencionais e de Chomsky ao centralizar a abordagem na comunicação.

2. Qual é para Searle a unidade mínima de comunicação?

Diferentemente de Benveniste, que elege a frase como a unidade mínima do discurso, Searle situa a produção dessa como a unidade mínima da comunicação lingüística, ou seja, o ato de fala.

3. O que é para Searle falar uma língua?

É realizar atos de fala conformando-os a regras constitutivas.

4. Que regras são colocadas em evidencia sobre o uso dos marcadores da força ilocucionária?

Searle ordena-as em quatro rubricas: regras das condições sobre o conteúdo proposicional (uma promessa consiste na projeção de um ato futuro do locutor); das condições preparatórias(no caso da ordem, a regra requer que o ouvinte seja capaz de executar) ; das condições de sinceridade (no caso da asserção, que o locutor acredite não que afirma) e regra essencial (liga o fato bruto, ato de prometer, ao fato institucional que é que é a obrigação contraída).

5. Quais problemas são tratados por Searle na obra "Expression and Meaning"?

Searle focalizará problemas da filosofia da linguagem, a saber: atos de fala indiretos, o discurso ficçional e o uso metafórico da linguagem.

6.Como Searle explica os atos indiretos?

Searle invocará mecanismos justificados de maneira independente, tais como os princípios de cooperação de Grice, a teoria dos atos de fala e a racionalidade presumida dos ouvintes. Assim, o convidado a quem dizemos: "Pode passar-me o sal?", raciocina da seguinte forma: "Meu vizinho de mesa n o está interessado em minhas aptidões para a preensão como poderia estar um ortopedista. Por outro lado, sup e que ele coopere nesse empreendimento comum que é uma conversação. A capacidade prévia de realizar uma ação é uma condição prévia para a formulação do pedido. De tudo isso decorre que "Pode passar-me o sal?" deve ser tomado como um pedido educado e não como uma pergunta."

7. O que é o discurso ficcional para Searle?

É um jogo de linguagem separado, mas n o um tipo de ato ilocucionário. É um caso parasitário em relação aos outros usos. O que confere a uma obra o estatuto de ficção é um posicionamento do autor que, em vez de fazer asserções, atém-se a pretender faz -las.

8. Quais são os princípios colocados em evidencia para explicar as metáforas?

São os princípios gerais de comunicação. Diante da frase "Sally é uma pedra de gelo". Este enunciado é defeituoso se tomado literalmente. Ora, a máxima de cooperação nos autoriza a presumir que o locutor quis dizer algo sensato. Procuramos então outra pista.Mas s o inumeráveis as interpretaç es. Nesse ponto, Searle evidencia princípios de comunicação que permitem recortar em um conjunto de interpretações, um subconjunto de dimensão aceitável: "Quando você escuta ‘S é P ’ e ‘S’ n o pode ser tomado em seu sentido literal, procure maneiras pelas quais S (Sally, no exemplo) poderia ser P (uma pedra de gelo).

9.Como Searle entende a noção de sentido literal?

A reflexão sobre atos de fala indiretos, obras de ficção, metáfora e ironia, pressupõe a noção de sentido literal. Searle rejeita a vis o corrente de contexto zero e demonstra que para um grande número de frases não existe contexto zero, contexto nulo. Mesmo para interpretar uma frase t o trivial como "o gato está sobre o tapete", temos que nos apoiar num conjunto de pressuposições e de informações prévias concernentes ao contexto em que a frase foi enunciada de maneira apropriada. Temos, por exemplo,que excluir a situação em que o gato flutuaria no espaço, situação em que não poderíamos opor "sobre o tapete" e "sob o tapete."

10. Quantos e quais são os tipos de atos ilocucionários inventariados por Searle?

Searle elencou cinco tipos:
- assertivos - "Jo o anda."
- diretivos - "Ande."
- compromissivos - "Prometo vir."
- expressivos - "Sinto muito sua partida."
- declarativos – "O senhor é culpado."

11. Em que base repousa o conceito de "direção de ajustamento"?

Para que uma asserção seja "satisfeita", o enunciado precisa descrever a realidade e, portanto, conformar-se a esta realidade. Para que uma ordem seja satisfeita, ou seja, obedecida, é preciso que a realidade conforme-se, ajustes-se, frase. Há, portanto, 0s possíveis direções de ajustamento: PALAVRA-MUNDO (assertivos); MUNDO-PALAVRA (diretivos e compromissivos); DUPA DIREÇÃO (declarativos); DIREÇÃO NULA (expressivos).

12. Que aproximações Searle faz em sua obra Intencionalidade?

Searle compara os atos de fala (fazer asserções, pedir etc) aos estados intencionais (acreditar, desejar etc). A noção de direção de ajustamento também pode transposta para os estados intencionais. A crença como a intenção deve conformar-se realidade, o desejo, assim como o pedido, é satisfeito se a realidade conformar-se a ele; MENTE-MUNDO; MUNDO- MENTE.
Há uma conex o entre os atos de linguagem e o estado intencional que lhes corresponde. Assim, por exemplo, o ato ilocucionário de asserç o é a express o do estado intencional de crença. Essa conexão é lógica como prova o caráter paradoxal de "p, mas n o creio que p."

IX - CONFERÊNCIA - DISTINÇÃO ENTRE ATOS ILOCUCIONÁRIOS E PERLOCUCIONÁRIOS

Questões de trabalho

1.O que cria maior dificuldade na distinção entre ilocuç es e perlocuções?

Temos que separar a ação que fazemos de sua conseqüência. Em geral, se a ação não consiste em dizer algo, mas trata-se de uma ação "física" não convencional, a questão complica-se. Austin propõe deixar de lado a noção de ato físico mínimo, não teríamos qualquer tipo de designação para distinguir atos físicos de suas conseqüências.

2.Que ajuda podemos receber da natureza especial dos atos de dizer em contraste com ações físicas?

Quaisquer que sejam as conseqüências naturais e imediatas de um ato de dizer, estas não são normalmente outros atos de dizer. Temos aqui uma espécie de ruptura natural da cadeia.

3. Por que não há um divórcio completo entre ações "físicas" e atos de dizer algo?

Para realizar um ato ilocucionário é necessário realizar um ato locucionário, por exemplo, agradecer é dizer certas palavras. E dizer certas palavras é necessariamente fazer certos movimentos com os órgãos vocais.

4.Pode-se dizer que o ato ilocucionário é uma conseqüência do ato locucionário?

Austin preocupa-se em esclarecer que nem mesmo os atos "fáticos" e "réticos" s o conseqüência dos atos fonéticos. O que ele introduziu pela nomenclatura da ilocução é uma referência, não só conseqüências da locução, e sim uma referência só convenções da força ilocucionária relacionadas com as circunstâncias especiais da ocasião em que o proferimento é emitido.

5.Como explicar que o ato ilocucionário está relacionado com a produção de efeitos em certos sentidos?

Se não alcançar determinado efeito, o ato ilocucionário não terá sido bem sucedido. A realização de um ato ilocucionário envolve assegurar uma apreensão. Por ex.: não se pode dizer que Austin preveniu o auditório a menos que este escute o que ele diz e tome isso em um determinado sentido.

6. Que distinção Austin estabelece entre "tem efeito" de "produzir conseqüências"?

Ao dizer :"Batizo este navio com o nome de Queen Elizabeth" tem o efeito de batizar ou dar nome; se certos atos, tais como referir-se ao barco como generalíssimo Stalin, serão sem cabimento.

7. Por que muitos atos ilocucionários levam a uma resposta ou seqüela que pode ter uma ou duas direções?

Podemos distinguir, por um lado, argumentar, ordenar, prometer, sugerir e pedir, e por outro lado, oferecer, perguntar a alguém se deseja algo, e perguntar "sim" ou "não"? Se a resposta é concedida, isso requer um segundo ato por parte do protagonista do primeiro ato. Austin afirma ser lugar comum da linguagem com que se expressam as conseqüências que isso não pode ser incluído na parte inicial da ação.

8. Que diferença observar entre "estar ligado a efeitos" do fato de "produzir efeitos"?

A primeira caracteriza o ato ilocucionário, enquanto que a segunda o ato perlocucionário. Austin diz que temos que distinguir ações que possuem um objeto perlocucionário (convencer, persuadir) daquelas que simplesmente possuem uma seqüela perlocucionária. Assim, ao dizer "Tentei preveni-lo, mas só consegui alarmá-lo". O objeto perlocucionário de uma ilocução pode ser seqüela de outra. Conclui o autor que atos perlocucionários sempre tem seqüelas, mais do que objetos. Posso surpreender alguém por meio de uma locução, embora não existam fórmulas ilocucionárias "Surpreendo-te por ...", "" Perturbo-te por "," Humilho-te por ...."".

9. Que outro traço define um ato perlocucionário?

A resposta ou seqüela que se obtém possa ser conseguida adicionalmente por meios não-locucionários. Assim, posso intimidar alguém agitando um pedaço de pau ou apontando uma arma de fogo. Os atos perlocucionários podem (importa saber se sempre) obter suas respostas por meios não convencionais.

10. E relativamente atos ilocucionários?

Austin responde que não pode haver um ato ilocucionário a menos que os meios utilizados sejam convencionais, e portanto os meios para alcançar os fins de um ato desse tipo em forma não verbal tem de ser convencionais. Mas é difícil saber onde começam e terminam as convenções.